Porque és assim

 

A estranha forma que tomam
as nossas atitudes,
quando não pensamos
ou achamos que pensámos tudo.

Esqueci-me que existe uma pessoa
e um coração que talvez não perdoe,
esqueci-me que gostava de ti como amiga
porque eras assim,
fria como um icebergue à deriva num oceano de gente,
meiga como uma pessoa carente,
eras previsível sem o saberes
mas eu gostava de tudo isso.

Mas depois de me enjaulares
e depois de me mentires
eu não conseguia estar contigo,
não porque te odiasse
nem porque quisesse estar longe de ti,
mas porque esperava que as minhas despedidas
te levassem à procura de algo
que te levassem a perceber o errado
que tudo isto estava.

 Mesmo que errado,
mesmo que estúpido.

 Não aconteceu,
em ti continuou a existir uma pessoa fria
de ti vieram exigências,
quiseste transformar algo
numa farça fútil, como não mais amigos,
mas como estranhos que só dizem “olá”,
mas um “olá” bonito,
como se essa fosse uma categoria
de pessoas que te preenchem
logo a seguir a seguir às pessoas a quem dizes um “olá” simples,
quiseste que todos pudessem apreciar
a nossa troca de vulgares “olás”.

 - ‘Deixei de te procurar, depois de me “enjaulares”.’
- ‘Estás bem com isso?’
- ‘Estou.’
- ‘Eu também.’

 E depois um adeus que ditou um inicio,
não se criou um ódio só que tu és Catarina.

E hoje só o destino nos encontra,
enquanto tu te mergulhas na podridão
dessas pessoas, perdão desses tristes,
que escolheste para te rodearem,
tal qual rainha que na ausência de um rei
escolhe, moribunda e cega, uma corte cheia de caprichos.

photo by ~Candeola@deviantart.com entitled “Cat Eyes”

O estranho desencontro de sentimentos*

 

E então Joana, valeu a pena
as coisas não terem sido diferentes?

photo by ~psychophuk@deviantart.com entitled “Joana”

*ou a peculiar generalização de um sentimento real

confissão

Já não penso na morte,
não como pensava antes
de forma exaustiva como na esperança
de resolver um problema monumental.

A morte vai ser algo de natural,
um dia vai ter de acontecer.

Vou deixar de existir,
não o meu meu corpo
que durará um pouco mais do que a alma,
vou deixar de pensar,
vou deixar de responder a quem chama pelo meu nome,
vou deixar de apreciar o tempo
que irá parar para mim
naquele meu último momento,
vou deixar de ser tranquilamente
como todas as noites em que adormeço.

A morte pelo seu estatuto de óbvia,
pela sua marca de inevitabilidade já não
me assusta mas cada vez mais perco tempo
a pensar em cada uma das razões
que tenho para continuar a existir.

E tão perigosa que é esta mitura
de pensamentos.

photo by ~neonihil@deviantart.com entitled “looking for reasons we’ll all”

pergunta o autor:

Será mais difícil escrever
ou sentir antes de o fazer?

Sentir é tropeçar em algo
perdido pelo chão,
escrever é tentar dar vida
a esse acaso.

Sentir é existir,
escrever é tentar ser eterno.

photo by ~Quoo@deviantart.com entitled “A Poet”

Porque a ignorância do destino torna-te sábio no amor

Eles dizem que a vida
é um jogo,
eu acho que eles pensam
que a vida tem regras.

photo by `scottjamesprebble@deviantart.com entitled “The rules of flirting”

estranha é a mulher que …

Estranha é a mulher
que tão depressa te diz,
com toda a certeza que podes esperar da situação,
‘não gosto de ti!’
acrescentando sempre
um argumento subtil, e talvez não pensado,
que nos faz pensar como: ‘tenho medo de estar contigo’,
porque afinal, algo de estranho e cheio de incerteza
existe em ti e isso fá-la não querer lá estar,
a paz que encontrava em estar contigo
só a encontra longe de ti.

‘Vamos ser amigos,
porque sou tua amiga
e o problema foi sempre só teu’,
poderia ser dito, também, por ela a qualquer momento.

Afinal de quem foi o erro,
talvez meu, a incerteza não se combate
com sinceridade e falar de frente com uma mulher,
de quem gostas, é tão perigoso para o que ela sente
como para o que tu achas que queres.

Mas secalhar todas as mulheres são assim,
se não for a tua incerteza é porque pensas
e talvez porque existas,
no fim mesmo que ela goste de ti
a única coisa que a incita para tais palavras
é a sua ignorância do que sente.

photo by *m0thyyku@deviantart.com entitled “the rabbit-cloud.”

três i

 Existem três tipos de pessoas:
as que têm medo da morte,
as que não acreditam na morte
e as que já a viveram.

photo by *m0thyyku@deviantart.com entitled “the three flowers.”

In The Mood For Love

Fa yeung nin wa (2000), realizado por Kar Wai Wong.

 Lento, tinha de ser lento porque só ao ritmo tão característico deste filme o espectador se apercebe da subtileza, do erro e da verdade que podemos encontrar também na nossa vida.

 

Lentamente ele apaixona-se por ela. Sem querer da mesma forma que não pode controlar o que sente, foge. Ela chora porque o marido escolheu a amante, ela chora porque o seu amante escolheu ir embora. Ela chora porque perde, mas não chora a escolha que toma. Ela escolhe o marido e é assim que termina a história.

É um filme sobre a natureza incontrolável e subtil da paixão, quando esta se revela podre e só nos oferece a pior solução.

Sem título XVIII *, **

Não preciso de ti para acordar de manhã;
não preciso de ti para me levantar de manhã;
não preciso de ti para ver o nascer e o pôr do sol;
não preciso de ti para viver todas as tardes
nem para ter com quem falar durante as refeições;
não preciso de ti para trabalhar
nem para ter ideias;
não preciso de ti para amar,
nem tens de existir para me sentir amado;
não preciso de ti para sorrir ou chorar;
não preciso de ti para ser feliz,
nem preciso de ti para ser triste
ou sentir-me indiferente;
não preciso de ti para ser saudável
nem quando estiver doente;
não preciso de ti para viver
nem que estejas ao meu lado para morrer;
simplesmente eu sei que não preciso.

Não preciso de ti para existir!

Mas sei que seria tão mais fácil
se te tivesse ao meu lado.

* Uma carta com sentimento porque o amor é belo se for realisticamente simples.
** A última carta para Alice, e depois o silêncio

photo by ~princessambrosia@deviantart.com entitled “love”

palavras amargas

 Como as pegadas
de um moribundo na
areia da praia.

Tão vazias e numa amarga
espera pelo esquecimento eterno.

As minhas palavras
são como essas pegadas.

photo by ~stealing-beauty@deviantart.com entitled “footsteps”

retrato de um ser sem casa

 

Não gosto de ser livre,
preciso de o ser.

Para que consiga ser
todos os dias um pouco
de mim mesmo!

photo by =xxchange@deviantart.com entitled “Homeless”

o último retrato dela

A jaula

Confessou ela:
“és demasiado complicado,
para que tenha vontade
de te entender”.

photo by  `nuvem@deviantart.com entitled “The Cage”

A mentira

Terminou:
“talvez porque és tu,
demasiado tu, assim como és,
que me faz não querer estar contigo”.

photo by ~cHiviL@deviantart.com entitled “Lie… “

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